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22 de agosto de 2010

Cem anos de perdão

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Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas,
então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.


Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la.


No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.


O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.


Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.



(Clarice Lispector - Cem anos de perdão)

(Felicidade clandestina)

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5 comentários:

Ariana disse...

Quem nunca roubou uma rosa que atire a primeira pedra ne!

Lindo, Clarice Lispector é demais!

Adorei!


bjos

Franck disse...

Aqui estou, não poderia deixar de vim...e, encantado estou! Sigo-a aqui tbém, claro!
Bjs e uma boa semana!

Sil.. disse...

Suzi querida...me fez lembrar Cazuza, na música "Foi por amor, o assassinato da flor".

Perfeito seu blog, PERFEITOOO!

Um abraço meu!!!

Alice disse...

Que lindo amiga!

Eu ja roubei rosas rsrs... Acredita?

Uma semana linda e florida para voce querida!

Lia Araújo disse...

Li esse conto a tanto tempo...
adorei as ilustrações


bjos querida